1 Século muito rico, muitas coisas importantes aconteceram nesse período da baixa Idade Média. Mudanças muito significativas foram acontecendo na sociedade. Surgiu uma classe de pessoas que não vivia no campo e, sim, nas cidades que foram sendo construídas, a burguesia.
2 Apareceram os primeiros artesãos, que produziam coisasusando de suas habilidades e as vendiam (comercializavam) para adquirir o que careciam, pois não tinham habilidade para o plantio. Assim, o comércio foi se desenvolvendo e fortaleceu-se a ideia de moeda e do escambo.
3 O Cristianismo perdeu um pouco de sua força porque viveuo ápice das cruzadas (expedições militares) nesse século. Elas começaram no século anterior por ordem do papa Urbano II. Essas expedições saíam da Europa, rumo à Terra Santa pararecuperar o túmulo de Jesus que estava nas mãos dos muçulmanos. E para retomar os territórios que haviam sido tomados e, com isso, contrapor-se à expansão do Islã. Os cristãos conseguiram recuperar Israel, após uma batalha sangrenta, em que ocorreu uma mortandade, inclusive de civis.
4 Jerusalém estava até esse momento da história, sob o domínio dos cristãos, cujo rei era Balduino IV, que tinha uma característica marcante na história: havia nascido leproso. Mesmo assim se tornou rei e tinha ele muita autoridade sobre os seus comandados, conquistando muitas vitórias contra os muçulmanos. Obteve vitórias, até mesmo, contra aquele que seria, posteriormente, conhecido como Salah ad-Din Yusuf ibnAyyub (Saladino).
5 No entanto, Salah ad-Din foi se aprimorando, ganhando notoriedade e, ao invadir pelo norte, onde hoje é Israel, conseguiu tomar o território de Edessa.
6 Nesse espaço de tempo propagou-se uma falsa notícia de que os peregrinos estavam sendo maltratados pelos muçulmanos. E isso mexeu com o brio dos cristãos. Historiadores dizem que foi uma propaganda lançada para estimular os cristãosa irem à luta.
7 A autoridade religiosa da época prometia a quem fosse às cruzadas o absoluto perdão de todos os seus pecados. O que motivava esses homens a lutar, a entregar suas vidas, era essa absolvição de suas faltas. A força do papado, na época, era muito grande, então, valia a pena lutar e ter os pecados redimidos e ir para o céu...
8 A segunda cruzada se organizou por iniciativa do rei francês, Luís VII, e de Corado II, rei da Alemanha. O grande objetivo era retomar o condado de Edessa, que havia sido perdido para os muçulmanos. Além desses dois reis, um monge francês, Bernardo de Claraval (vales claros), da ordem dos monges cistercienses, surgida na parte oriental da França, também fomentou essa incursão. Eles se vestiam todos de branco.
9 Lutariam motivados por um sentido muito religioso, ou seja, recapturar Edessa e, posteriormente, todo o território de Israel, pois essa era a vontade de Deus. Assim pensavam... No entanto, os que lutaram nessa cruzada foram praticamente dizimados pelos muçulmanos.
10 Com essa tentativa frustrada, o papa não aceitou atransferência de domínio da Terra Santa. Era preciso organizar uma outra cruzada, a terceira, mas que dessa vez fosse “a cruzada”, formada por reis. Foram eles: Felipe II, rei da França, Frederico Barbarossa (Barba Ruiva), rei do território que hoje é a Alemanha e Ricardo Coração de Leão, rei da Inglaterra. Juntos, formaram a terceira cruzada, e partiram para retomar o território de Israel.
11 Um deles, no entanto, Frederico Barbarossa, sequer chegou ao território de combate, pois morreu afogado em um riono percurso. Os outros dois chegaram ao destino, mas Felipe II,ao perceber que as condições eram difíceis, precárias, retornouao seu reino, pois se ficasse na França teria muito mais a ganhar. Ricardo Coração de Leão seguiu em frente, combatendo sozinhoe conseguindo reconquistar alguns territórios. Mas, foi vencido por Salah ad-Din e não conseguiu recuperar a Terra Santa.
12 Salah ad-Din era um sultão da dinastia dos Aiúbida, que substituiu a dinastia dos Fatímida, no Egito. Possuía características especiais e entrou para a história como um homem doce, compassivo, bem diferente dos outros sultões. Extremamente inteligente, com habilidades militares muito grandes, de caráter elevadíssimo. Se notabilizou nas cruzadas por sua nobreza e como batalhava.
13 Há uma passagem sua, nas cruzadas, em que ele estava guerreando contra o rei da Inglaterra, Ricardo, Coração de Leão.Nesse combate, o cavalo de Ricardo foi abatido e o rei estava lutando a pé. Um cavaleiro cristão carregou o rei, fugindo do combate, indo para o acampamento cristão. Sem saber o que faria ele para continuar a guerra sem seu cavalo, à noite, surgiu no acampamento um muçulmano trazendo dois cavalo árabes e anunciou que Salah ad-Din os havia mandado de presente para o rei, porque ele não gostaria de combater com Ricardo desprovido de um cavalo...
14 Em outra ocasião em que ambos estavam em combate, os soldados muçulmanos, em vez de atacar o exército cristão, atacaram aqueles que traziam as provisões de alimentos para o acampamento dos cristãos, ficando sem poder se alimentar para o combate. Salah ad-Din mandou, então, para o acampamento de Ricardo, Coração de Leão, frutas frescas e uma refeição para que pudessem combater de igual para igual, pois os reis têm que estar bem nutridos para um bom combate...
15 Numa outra batalha, Ricardo se feriu, então, Salah ad-Dinmandou seus médicos para cuidarem dele. Ricardo estava tão impressionado com seu inimigo, que propôs a paz entre eles. Propôs que o irmão de Salah ad-Din se casasse com a sua irmãe assim, selariam a paz. Salah ad-Din não concordou, pois não seria possível um muçulmano se casar com uma cristã...
16 Ricardo, Coração de Leão, foi um grande combatente e um grande nome nessa cruzada, pois obteve várias vitórias. Mas, Salah ad-Din, no final, venceu a batalha e quando entrou, triunfante, em Jerusalém, os cristãos começaram a correr e se esconder de medo de serem mortos. Disse-lhes então, Salah ad-Din, que não tivessem medo, pois não iria matá-los, que não ganharia nada com isso, e que, doravante, eles teriam liberdade de culto, que muçulmanos e cristãos poderiam viver juntos e que somente mataria aqueles que não o aceitassem como seu governante, que passariam a trabalhar para ele e produziriampara o seu enriquecimento.
17 Foi ele um guerreiro que matou, combateu, derramou muito sangue, mas dentro do padrão da época, dentro daquilo que se esperava dos sultões muçulmanos, ele foi bastante compassivo. Após ter vencido a batalha da conquista de Jerusalém, o rei vencido não foi morto, pois “um rei não mata o outro rei”. Ricardo foi poupado para que retornasse ao seu reino.
18 Salah ad-Din gostava de ciência, de incremento artístico. Foi uma época em que ele quis incrementar de novo as artes, os estudos e as ciências. Foi uma época de embelezamento da cultura árabe, consequentemente, da Terra Santa.
19 Um outro fato, interessantíssimo: ele doou todos os seusbens, tudo o que possuía, antes de morrer, para caridade,ficando sem nada. Quando da sua partida, seus sucessores correram para suas arcas para se assenhorarem de seus tesouros, mas, quando as abriram, nada mais havia...
20 Então, mais uma vez, houve, de uma certa forma, paz entre muçulmanos e cristãos, devido a essa proximidade entreRicardo, Coração de Leão e Salah ad-Din. Foi um tempo de maior prosperidade, pois os cristãos começaram a poder ir à Terra Santa - um tempo de trégua. No entanto, o papa queria o território de volta, e vai organizar mais cruzadas que acontecerão no século seguinte.
21 Um fato interessante sobre Ricardo, Coração de Leão é que, quando de sua ida para as cruzadas, a Inglaterra teria ficado nas mãos de governantes transitórios, que eram muito autoritários e não eram nobres como Ricardo, Coração de Leão.Uma pessoa do povo, chamado, Robin Hood, começou a roubar dos ricos para dar aos pobres. Então, surgiu a lenda dopersonagem Robin Hood. Isso foi tirado das tradições, mas que não há comprovações.
22 Foi esse, um período muito interessante, em que surgiugrandes intelectuais no mundo do Islã. Bait al ickman, a Casa da Sabedoria, propagou muitos conhecimentos em muitos lugares. Dentro da corte de Salah ad-Din se prestigiava o conhecimento científico. Houve um médico muito conhecido, chamado Maimonides, que na verdade era judeu. Então, Salah ad-Din, muçulmano que lutava contra os cristãos, tinha como seu médico pessoal, um judeu.
23 Maimonides é um dos grandes nomes do judaísmo. Depois de Moisés, ele é o nome mais importante da religião judaica, pois, nesse período da História, reavivou o judaísmo, que estava muito enfraquecido. Sofreu muitas perseguições, a família fugia de cidade a cidade, até chegarem ao Cairo. Ali ele conheceu Salah ad-Din e este, notando a sua sabedoria, o convidou para fazer parte de sua corte, dando notoriedade a ele. Ele se tornou o médico da corte, redigiu um texto muito basilar dentro do judaísmo chamado “Os Treze Princípios de Maimonides”. Para ser judeu deve-se estar alinhado com esses treze pontos. Maimonides é também conhecido pelo seu apelido, Rambam.Escreveu também o livro que ficou para a história, Guia para osPerplexos, um diálogo entre Aristóteles, com sua filosofia grega e o judaísmo, em que se percebe que tudo se parece, se iguala...
24 Tanto ele quanto Averróis, um dos mais influentes filósofos, médicos e juristas muçulmanos deste século, proporcionaram um período de união entre a ciência e a religião, ou seja, tudo o que é revelado por Deus merece estar de acordo com aquilo que é descoberto pelos homens. Não tem como desassociar religião de ciência, fé, da razão. Essa foi a proposta dos dois. Bonito demais!
25 Nesse período, surgiram várias ordens, como a dos Templários, que eram chamados “Os Cavaleiros de Cristo”.Surgiu com uma personalidade europeia, mas quando teve a ideia, se encontrava em Jerusalém: Hugo de Payns. Levou ele a ideia ao rei de Jerusalém, posteriormente ao papa. Pensava que os cavaleiros de Jesus, como ficaram sendo chamados, seriamabençoados pelo papa para defenderem a Terra Santa e a travessia dos cristãos, que peregrinavam da Europa para Jerusalém e vice-versa, seriam protegidos tanto na ida como na volta.
26 Eram cavaleiros muito nobres e que protegiam não somente os peregrinos e a Terra Santa, mas também o papa. O nome Templários foi escolhido devido ao Templo de Jerusalém, quando já não existia mais Templo a ser protegido. Para se pertencer a essa ordem era preciso fazer voto de pobreza...
27 Os Templários eram como banqueiros. Os peregrinos davam dinheiro a eles no início da peregrinação e recebiam um documento que registrava o valor exato. Quando chegassem a Jerusalém, recebiam a quantia de volta, assim não corriam o risco de serem roubados no caminho.
28 Como cobrassem uma parcela do que retinham pela sua proteção, ficaram ricos e eram protegidos pelo papa. Mas, mais à frente vão se corromper. O rei da França, Felipe IV, o Belo, percebeu o que estava acontecendo: que, enquanto os Templários protegiam os peregrinos e eram protegidos pelo papa e se enriqueciam, ele estava perdendo sua supremacia. Então,em nome dessa supremacia, houve a morte dos CavaleirosTemplários, que vai acontecer no próximo século.
29 O símbolo dos templários é um cavalo montado por dois cavaleiros, para mostrar que eles eram humildes, de tão pobrezinhos. A segunda ordem que foi criada, foi a dos Hospitalários. Essa ordem cuidava dos feridos, dos sequelados por conta das cruzadas. E uma terceira ordem, a de São Lázaro, igualmente foi criada, por antigos cavaleiros que adquiriram a lepra, mas serviam assim mesmo, a Jesus.
30 O Império muçulmano, em 711, havia tomado a Península Ibérica, além de muitos outros territórios. Portugal estava praticamente todo nas mãos dos muçulmanos. Somente o Reino das Astúrias, ao norte, não estava. Eles, para se defender dessesinvasores, precisavam de quem soubesse lutar contra o inimigo. Pensaram nos Templários, que tinham adquirido prática em lutar contra os muçulmanos, e os chamaram para os defender, e fizeram, então, um acordo. Eles foram para a Península Ibérica, lutaram e venceram. Portugal se restabeleceu como uma nação, restando, assim, uma dívida para com os Templários, e essa dívida vai ser paga somente no século XV, com um desfecho interessantíssimo...
31 Em 1139, houve a batalha de Ouriques. Conta a históriaque D. Afonso Henrique teve uma visão de Jesus, na qual ele iria derrotar os mouros (como eram chamados os muçulmanos, vindos da Mauritânia). Esse foi um confronto decisivo neste século, em que as forças de D. Afonso Henrique derrotaram osmouros e avançaram, conquistando o reino de Portugal. Assim, em 1148, com essa vitória fundamental, consolidou-se a independência do Reino de Portugal, que teve como seu primeiro rei, D. Afonso Henrique.
32 O reino de Portugal surgiu, então, a partir da batalha de Ouriques, em 1139, com a ajuda dos Templários. E consolidou-se em 1148, a partir de um condado no norte, às margens do rio Douro, chamado Condado de Portucalense. Assim nasceu Portugal!
33 Teve início nesse século, o estudo do Cristianismo nas universidades, que começavam a surgir. O estudo do Cristianismo deixou de ser, exclusivamente, da Igreja, porque a fé poderia ser estudada, pelo ensino da teologia, em que se estudaria o Antigo e o Novo Testamento, o Canon, e como tudo surgiu. Grandes filósofos, teólogos e estudiosos apareceram. Um deles, francês de nome Pedro Abelardo, tem uma história real de amor, lindíssima. com Eloísa.
34 Abelardo era um homem maduro, bem letrado, tinha ele cátedra, pois era professor de teologia. Eloísa era muito jovem, adolescente, praticamente. Ele foi seu preceptor, seu professor, mas se apaixonaram. Com as funções religiosas que tinha, ele não poderia se casar, pois tinha feito voto de celibato. O tio de Eloísa não permitiu que ficassem juntos e os separou. Durante um tempo, ficam se correspondendo e essas cartas existem e as pessoas as estudam.
35 Mas, acabaram sendo descobertos, não antes de terem um relacionamento íntimo. Ela engravidou e eles resolveram se casar às escondidas. No entanto, antes do casamento, foram descobertos pelo tio dela, que se enfureceu. Então, a mando do tio, ele foi castrado e mandado para um convento, na Bretanha.Ela foi mandada para um convento em Paris e nunca mais se viram. Ficaram até o fim de suas vidas se correspondendo.
36 Nessas cartas que trocavam, descrevem as frustrações que sentiam um pelo outro. Ele se sentia responsável pelo futuro que ela não teve. Ela, igualmente, se responsabilizava por aquilo que ele deixou de fazer. O filho deles foi chamado Astrolábio. Alguns historiadores dizem que o nome foi escolhido em homenagem a Hypatia, de Alexandria. Foi ela uma mulher de muitos conhecimentos, neoplatônica e matemática. Ela não criou o astrolábio, mas intensificou seu uso. Esse aparelho serve para medir a distância das estrelas e calcular a circum-navegação dos navios. Foi muito utilizado pela escola de Sagres, que vai surgir no século XV.
37 Contam os historiadores que Abelardo tinha o verbo iluminado, era um grande orador, com grande sabedoria, pois era um polímata. Nessa época, para ser filósofo era necessário ter conhecimento de teologia e não era permitido se casar. Por onde passava, ele encantava. Quando morreram, Abelardo e Eloísaforam sepultados juntos. Seus corpos estão no cemitério de Père-Lachaise, em Paris.
38 Em 1184, no Concílio de Verona, na Itália, o papa Lúcio III,deu início àquele que pode ser considerado o movimento mais drástico da Igreja: a Santa Inquisição. Com a proposta de que era preciso defender a fé e criar um movimento em que todo aquele que se opusesse à fé Apostólica-Católica-Romana precisava ser levado a um tribunal. Nesse tribunal ele teria a oportunidade de, ou abjurar, ou seria morto, para que o Diabo que o levou a agir dessa forma fosse expurgado do seu corpo.
39 Esse movimento não só defendia a fé, mas espoliava as pessoas, principalmente, os judeus (inúmeros processos foram concluídos com a dilapidação de seus bens). Quantos muçulmanos, mulheres simples, consideradas bruxas, magos, foram levados aos tribunais da Inquisição. Em Portugal, a Inquisição obrigava os judeus a mudarem de nome. Surgiram, então, os Silveiras, Oliveiras, judeus convertidos...
40 Nesse século, em 1163, iniciou-se a construção da Catedral de Notre-Dame (Nossa Dama), em Paris, em estilo gótico. Uma homenagem dos Godos, uma tribo bárbara, à Mãe de Jesus. Na época foi considerada um monumento muito feio. No entanto, hoje é uma das Catedrais mais lindas do mundo.
41 Houve, também, nesse período, a expansão de várias igrejas pelo mundo (de acordo com historiadores, quinhentas igrejas notáveis foram erguidas na França), para confrontar com os muçulmanos, pela supremacia da suntuosidade dessa construções... assim, mostrar o poder, a força, a glória do Cristianismo...
42 Nasceu, no final desse século, precisamente, no dia três de outubro de 1182, aquele que viria para reformar a Igreja de Jesus, Francisco de Assis...
The Twelfth century
City of Saint Franics,
Assisi